Aquarela

30/06/2013    Postado em Contos, Textos

No início, recebia visitas em sua casa, tudo sempre muito organizado e emanando hospitalidade. Amigos e parentes aproveitavam sua companhia e visitavam frequentemente. Quanto mais se conhece uma pessoa, entretanto, mais fácil se torna perceber certas particularidades. E elas espantam as pessoas que nunca foram ensinadas a não se envergonhar de suas personalidades. Protocolos, convenções sociais. Entendia o que eram e para que existiam. O que não compreendia era a razão para tanta preocupação em moldar o outro.

Trabalhava com criação. Quem vê as mais belas pinturas num museu não faz ideia de quão caótico pode ser o estúdio de um artista. Aquela roupa bonita que veste para comparecer à vernissage não compõe sua personalidade. É uma concessão feita àqueles que aceitam apenas o resultado de seu processo criativo e não a criação por inteiro. É uma sociedade       que aceita filhos bem criados, mas somente depois de adultos, fazendo o possível para esconder o babador sujo de papa.

Quando percebeu que conter seu caos dentro de gavetas e atrás de portas não seria o suficiente para que as pessoas lhe aceitassem, desistiu de insistir no convívio. Das críticas à sua personalidade, tirou a lição de quem não era capaz de enxergar sua obra desde o primeiro risco, o primeiro parafuso, jamais aceitaria sua visão do mundo ou sua conduta. Contentou-se com a admiração dessas pessoas pela condensação, pelo resultado. Mesmo sabendo que, naquele resultado, pouco já restava de si. Sua arte, verdadeiramente, jaz no processo. Como a arte da Mona Lisa está na técnica, não no sorriso. Deixou de se importar com olhos e orgulhos feridos, concentrando-se em sua obra. Ao deixar este mundo, todo sentimento que materializou garantiu que nunca realmente partisse.

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As coxinhas e o vinagre

20/06/2013    Postado em Comentários, Textos

Depois que Washington Olivetto deixou o cativeiro, muito se falou nas coxinhas do Frangó. Um elogio seu foi divulgado e a fama dos salgados correu o país. Eu era mais novo, tinha acabado de entrar na Faculdade de Direito, e durante anos alimentei o desejo de experimentar uma daquelas coxinhas. Fui a São Paulo várias vezes desde então, mas nunca tive oportunidade de ir à Freguesia do Ó averiguar a veracidade das alegações daquele senhor cujo paladar foi tão comentado naquela época. Foi em 2005 que eu finalmente tive a chance de experimentar um dos ícones da gastronomia paulistana – o sanduíche de mortadela do Mercado Municipal. Mas, chegando lá, o dono do meu coração e posseiro de meu estômago foi, mesmo, o sanduíche de lascas de pernil.

Tal é a influência de uma opinião que acontece isso, você tem vontade de experimentar tal prato, adotar tal ideia. Às vezes, nem é uma opinião, mas a pessoa lhe indica um objeto com tal competência que você termina comprando. Não se envergonhe, você não é o único. Quantas pessoas pegaram o telefone depois de ver um anúncio do Bottini? O fato é que tanto o meio quanto a sugestão das pessoas são fatores poderosos na formação de nossas opiniões e escolhas. Assim, é preciso ter muito cuidado com elas. Ou, ao menos, com as importantes. Compare, como você compara o sanduíche da foto com o da sua bandeja.

Você não escolhe com quem vai casar com base na opinião de um terceiro, porque precisa formar convicções cegamente baseadas na opinião de um colunista? Ideias são bichos traiçoeiros. Quem trabalha com elas sabe que têm vida própria. O sujeito pode morrer dizendo de sua isenção. Ele não é. Ele não pode ser. Não se ele escreve baseado numa ideia. Não se ele escreve para um veículo com agenda política. Nenhum de nós é interno de berçário, somos capazes de compreender que todo veículo de imprensa de grande porte neste país tem uma agenda política. Pode até não ser clara à primeira vista, mas ela sempre existe. O que é natural, já que pertence a humanos, que são seres políticos. Você tem uma agenda política, eu tenho, ele tem. Ela pode beirar a simploriedade, mas pondere e verá que ela existe.

Pondere mais um pouco, analise os acontecimentos da última semana. Eles estarão nos livros de História de seus netos. Há um certo consenso em alguns tópicos, como o fim da corrupção – algo que, realmente, não pede lá muita reflexão – mas há coisas controversas. Esse papo de impeachment que vem surgindo nos últimos dois dias é um deles. Não vi ninguém falando disso até o domingo, mas logo na segunda-feira, surgiu a conversa aqui e ali. De onde veio isso? Qual a semente dessa ideia? A quem aproveita o impeachment da presidente (sim, com e; dane-se a lei ególatra dela)? Ainda teríamos de esperar 2014 para escolher novos representantes. Até lá, sobra quem? Temer? Renan? Nutro severa antipatia pelas políticas populistas de sua gestão. Alinhado com os manifestantes, antipatizo ainda mais com os gastos públicos para a realização dum evento que, digam o que disserem, não é do Brasil. É da FIFA. É um nível e uma natureza de desperdício de nosso dinheiro tão profundo que eu não consigo encontrar um adjetivo que não torne obrigatória a censura deste texto para menores de dezoito anos. Sim, é por aí.

Mas nem isso é tão perigoso. Nós lidamos com corruptos desde o tempo de Gregório de Mattos. Mal e porcamente, mas sua natureza nos é familiar. O perigo reside em atitudes impensadas e ideias emprestadas. Do colunista de ideias reacionárias que ventila – eles nunca realmente propõem, mas plantam a ideia nos leitores, na expressão de uma arte manipulativa centenária – soluções rápidas mas que estupram as instituições democráticas. Estupram mas não matam, então tudo bem? Não, tomem a história como exemplo. A Bastilha caiu porque o povo tinha fome. Mas o povo, na verdade, foi guiado, manobrado, por uma dúzia de intelectuais. E então, quando aquelas ideias radicais plantadas para tirar o povo da inércia frutificaram, cabeças começaram a rolar até dentro do movimento. Literalmente. Também vi falarem numa modalidade neomalufista – rouba, mas faz – do já entrou, agora deixa. Usar o dinheiro dos turistas para tapar o rombo dos superfaturamentos e outros absurdos. Por que esse conformismo? É tão mais produtivo incitar quem tiver prova dos desvios, anonimamente, que seja, a apresenta-las ao Ministério Público. Fazer correr na Internet. Afirmo categoricamente, se coisas dessa natureza vazarem, a divulgação é garantida. Alguém que queira expor maquiagem contábil de concessionárias, denunciar propina, apresentar documentação comprovando improbidade administrativa. Não devemos nada a quem lesa o erário. É, precisamente, o contrário. E, como li ontem, se nós conservarmos a lição de que, indo às ruas para protestar pacificamente, conseguimos resultados, já terá valido a pena. Embora eu tenha mais fé nas pessoas do que apenas isso.

Dia desses, próxima vez que pisar os pés em Sampa, talvez, finalmente, eu consiga experimentar a famosa coxinha. Isso se algum outro prato não prender minha atenção no caminho.

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Passou da hora

18/06/2013    Postado em Idéias, Mensagens, Textos

Em 16 de maio de 2001, o Batalhão de Choque da PMBA, concretizando a profecia de Governador Mangabeira, invadiu o campus da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia com ordens de reprimir protestos contra o então senador Antônio Carlos Magalhães, implicado até os cotovelos no escândalo do painel eletrônico do Senado. Na ocasião, Arx Tourinho, Subprocurador-geral da República, desceu ao viaduto do Canela e terminou agredido pelos policiais. A Choque sitiou um edifício federal a mando de um político. A segunda parte da equação é igualmente familiar e semelhante ao que o grande circuito de imprensa vem tentando esconder. Os manifestantes, dentre os quais a grossa maioria era de estudantes, resistiram, pelejaram, e não desistiram.

A profecia do antigo governador Octávio Mangabeira, nome de batismo da Fonte Nova original, agora substituída por uma que carrega o nome duma coisa aguada que alguém resolveu chamar de cerveja, dizia “pense num absurdo; na Bahia, há precedente.” E é bem isso. 14 de junho de 2013 tem precedente mesmo depois de 1988, é o 16 de maio de 2001. Numa manifestação de democracia, a PM achaca igualmente, sem discriminação social, política ou de ocupação profissional. Ataca estudantes, profissionais liberais e até jornalistas que foram registrar o ocorrido. De novo, a mando de políticos, por interesses que pervertem a sua própria finalidade enquanto instituição.

Polícia é, para a sociedade, como aquele cão vigia, alerta, leal aos seus, protetor, zeloso. Polícia tem de ter maturidade, discernimento, retidão. Policial que agride, mesmo se provocado, com força desproporcional, que ataca quem deveria defender, mesmo que seguindo ordens, que fere direitos que deveria garantir não é mais que um infeliz que desonra sua função, sua farda, seu propósito. Policial que protege interesse político à custa de achacar cidadãos covardemente é tão torpe quanto babá que bate em criança, médico que mata paciente, advogado que lesa cliente. É a corja de sua classe, a completa desonra daquilo que representa.

E, logo, como os urubus que planam nas correntes de ar quente para poupar esforço, os grandes conglomerados de imprensa começam a mudar o tom. Primeiro, isoladamente, por meio de seus “colunistas independentes”. Aos poucos, quando notarem que o barco daqueles que lhes alimentam ameaça adernar, não apenas abandonam seus benfeitores como alegam isenção e ajudam a naufragá-los de vez. Perniciosos, querem apenas sobreviver. Fizeram isso em 64, novamente em 88 e em cada evento de mudança política que ocorreu desde então. Por favor, duvide das minhas palavras. A dúvida é o que nos mantém alertas. Procure artigos das grandes semanárias datados de 1989 e, depois, de 1992. 2001 e 2008. Forme sua opinião, uma que não seja emprestada de uma facção política.

Alguém começou a propagar a ideia ridícula de que discutir política é como discutir futebol. Certamente com o mesmo intento do varejo financeiro ao criar o parcelamento sem juros, uma das formas mais engenhosamente Houdinianas de lesar o consumidor. Eu não saberia dizer o que há de apaixonante no futebol, mas sei que as pessoas falam dele por paixão. Política não tem nada de paixão. É razão, debate, ideias. Toda vez, e eu realmente fecho a porta às exceções, que alguém fala de política com paixão, um cheiro de peixe podre estupra-me as narinas. Existem aqueles que defendem ideais com fervor, como Ruy Barbosa. Quando alguém fala de política apaixonadamente, deixe-o falar por tempo o bastante e ele vai citar um nome. Seja de um partido, de um livro ou seu autor ou de um político, esse nome surgirá. E, com ele, a origem daquilo que o apaixonou na política. Provavelmente, algo fictício, criado com o único propósito de angariar simpatizantes.

Testemunhei isso muito detidamente nos meus anos de faculdade. Pessoas defendendo apaixonadamente o que lhes disseram ser uma ideologia. Mais adiante, as mesmas pessoas usando verba dos Centros Acadêmicos para fins alheios à atividade e aos interesses dos estudantes que os elegeram como representantes. Era notória a relação de vovó e netinho dessas pessoas com a Universidade, alguns chegando a ter sua bolsa de estudos mantida mesmo perdendo matérias por falta. Em campanha, uma das chapas apareceu com adesivos coloridos. Custavam uma fortuna em dinheiro de estudante. Deixando-os à vontade para falar, vem à tona o nome. Um partido, cujo nome omito para que, como os outros, apodreça e caia no ostracismo, mandou imprimir. Na sua gráfica própria, e sem cobrar nada por isso. A finalidade era clara, angariar novos membros para sua ala jovem. A tática dos espelhinhos e miçangas, eficaz desde 1500. Uma outra pessoa que conheço dessa época, que defendia fervorosa e incondicionalmente determinado partido, segredou-me anos mais tarde que foi trabalhar para o diretório estadual após receber sua inscrição na OAB e demitiu-se algum tempo depois. O motivo: eles provavelmente queriam o mesmo fervor altruista, já que lhe atrasaram um trimestre inteiro de salário. E não creio que por falta de verba.

Ser político, portanto, não tem nenhuma ligação com partidarismo. Ser político é reunir-se com outras pessoas que partilham dos mesmos objetivos e organizar-se para atingí-los. Não existe reunião verdadeira de ideias afins porque uma ideia dificilmente se replica com a mesma forma em duas cabeças. Digo isso como quem cria personagens e sabe que, se não descrever a cor do cabelo, dois leitores podem imaginá-lo de cores distintas. E isso é normal. O que não é normal é essa perversão chamada partidarismo, onde meia dúzia convence o resto do rebanho e não tarda a mostrar as unhas. Basta ler nas entrelinhas, procurar o que a imprensa omite. Nem o sindicalismo é legítimo. Viciados pelo pernicioso imposto sindical, usam discursos inflamados cheios de “luta” e “categoria” para contentar-se com migalhas. Não pode ser acidente. Uma pessoa que não trabalha não pode representar trabalhadores. Uma agremiação sustentada pelo Estado não vai morder a mão que o alimenta. E nada fala mais claramente contra o partidarismo que as alianças incestuosas entre políticos que estiveram a um passo de fazer bonecos de vodu uns dos outros há vinte anos, talvez menos, e aparecem sorridentes e aos abraços, insultando nossa inteligência. Os partidos de nosso país, se alguma vez tiveram legitimidade, não passam, hoje, de um teatro cínico de gente que se reveza nos papéis de mocinhos e bandidos para nos distrair enquanto levam nossas carteiras. E nem um movimento legítimo como o que se instalou pelo país afora escapa dos sanguessugas que buscam colocar sua marca de qualquer forma, persistentes como mosquitos. Mas esses, coitados. Massa de manobra. A solução para eles é colocar o flautista pra correr e esperar que se dissipem. Em 2001, ACM terminou renunciando ao mandato. O carlismo virou fumaça e se dissipou. Torço que 2013 faça o mesmo com o partidarismo. Passou da hora, e nós merecemos.

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